Guia da Cidade de Silves

AS MURALHAS DE SILVES


© Baeta Oliveira


O sistema defensivo que envolveu em tempos toda a cidade de Silves era bastante completo e sofisticado.

Embora subsistindo opiniões de que poderá ter havido algum reduto defensivo da época romana ou pré-romana na actual colina em que assenta a cidade, o que até hoje se confirmou arqueologicamente é a existência de uma muralha construída, hoje quase totalmente oculta, logo após a conquista árabe no séc. VIII.

O que resta actualmente do sistema defensivo de muralhas que envolvia Silves remonta quase exclusivamente à época almóada da ocupação islâmica ( séc.XII-XIII ), época das lutas da Reconquista cristã levadas a cabo pelos primeiros cinco reis de Portugal, tendo beneficiado nos anos 40 deste século de importantes obras de recuperação, hoje em dia em alguns pormenores criticadas.

A estrutura desta importantíssima obra militar assentava na harmonização das suas várias partes: a Alcáçova, as Muralhas da Almedina, a Couraça, as Muralhas do Arrabalde e a muito provável existência de fossos e barbacãs.

© Margarida Ramos

A Alcáçova é a área nobre do Castelo e aquela que beneficiou de importante restauro e consolidação neste século ( 1948 ). (Leia, noutro local, o texto "A reconstrução do Castelo de Silves em 1948", por Aurélio Nuno Cabrita.

A sua superfície é de aproximadamente 12 000 metros quadrados, rodeados por muralha de forma poligonal construída em arenito vermelho, o conhecido grés de Silves, e miolo em taipa.

Este conjunto de muralhas possui duas saídas: uma, a principal, dá acesso à Medina ( a cidade ), a outra, mais pequena e virada a Norte, é conhecida por Porta da Traição, e surge habitualmente nas construções muçulmanas dando acesso directo ao exterior.

As muralhas desta alcáçova são exteriormente reforçadas por onze torres de planta rectangular mas de concepção diferente.

Referimo-nos às duas que são albarrãs, isto é, se destacam do pano de muralha através de um passadiço.

No interior desta alcáçova várias coisas ainda a registar: as duas cisternas, muito provavelmente mouras, uma das quais abobadada, o algibe, mais conhecido por Cisterna da Moura e à qual se liga uma lenda; a outra, conhecida por Cisterna dos Cães, tem tanto de enigmática como de profunda, havendo quem diga que liga ao rio.

© Baeta Oliveira

(Cisterna da Moura)

A destacar ainda as escavações em curso, que já revelaram um Palácio Almoada e quem sabe se um dia o mítico Palácio das Varandas, o Axarajibe, da poesia e da lenda...

© Baeta Oliveira

(Ruínas do Palácio Almoada)

Hoje o castelo é um romântico local de passeio, um dos mais belos miradouros da cidade operária, um local de entretenimento dos dias de Verão.

© Baeta Oliveira

(Área NW do interior do castelo)

As Muralhas da Almedina envolviam a cidade que pela colina se estendia. Ainda hoje são visíveis na zona norte e poente algumas torres-albarrãs, das mais genuínas porque quase não restauradas. Na Rua Nova da Boavista duas grandes albarrãs, junto à Câmara Municipal outras três, uma das quais a mais importante porta da Medina, outrora a Casa da Câmara.

© Baeta Oliveira  © Baeta Oliveira   © Baeta Oliveira

(Várias torres albarrãs no perímetro da Almedina)

A Couraça é outra das originalidades introduzidas pela engenharia militar almóada.

As Muralhas do Arrabalde envolveriam a parte mais baixa da cidade. Dessa estrutura de material mais pobre resta o conhecido Arco da Rebola ( Rua da Cruz da Palmeira ) e o complexo de estruturas relacionadas com a Muralha do Arrabalde Oriental, postas a descoberto quando das escavações levadas a cabo para a construção do edifício da nova Biblioteca Municipal ( Largo de Al-Mu'tamid).

Completariam este forte dispositivo militar algumas barbacãs e fossos dispostos nos locais mais vulneráveis.

Texto © Manuel Castelo Ramos

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© Margarida Ramos

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Vocabulário

ALMÓADAS - Tribo norte-africana cujo centro político foi Marraquexe e que conseguiu o controlo político e militar sobre o al-Andaluz, o al-Gharb ( o Ocidente ) incluído, da segunda metade do séc. XII até à primeira metade do séc. XIII, quando as tropas cristãs reconquistaram definitivamente o Algarve. A maioria dos restos monumentais mouros de Silves é deste período.

CISTERNA DA MOURA - Trata-se duma cisterna abobadada em quatro naves à qual está ligada a lenda da Moura: conta-se que na noite de S. João ( 24 de Junho ), pela meia-noite, se ouvem lamúrias de uma princesa moura que, num barco de prata com remos de ouro, anseia que um príncipe da sua raça a venha desencantar.

AXARAJIBE - Também conhecido por Palácio das Varandas, seria por certo uma magnífica construção palaciana para ser comparada na poesia árabe às mais belas de Bagdade. Poderia ter com o Alhambra de Granada algumas semelhanças. Construção talvez do príncipe al-Mu'tamid ( séc. XI ), e hoje ainda por encontrar, inspirou inúmeros poetas e tertúlias filosóficas.